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Estudo cria mapa inédito dos nervos do clitóris

Estudo cria mapa inédito dos nervos do clitóris

Pesquisadores liderados pela neurocientista sul-coreana Ju Young Lee apresentaram o primeiro mapeamento tridimensional detalhado dos nervos do clitóris, um avanço que ajuda a preencher uma lacuna histórica no conhecimento científico sobre a anatomia feminina. O estudo foi divulgado em março de 2026 como preprint e descreve, pela primeira vez, a trajetória completa das principais estruturas nervosas do órgão.

A pesquisa foi conduzida por cientistas ligados ao Amsterdam University Medical Center e ao projeto Human Organ Atlas Hub, iniciativa internacional voltada à criação de mapas tridimensionais do corpo humano. Segundo os autores, o trabalho pode contribuir para aprimorar procedimentos cirúrgicos realizados na região da vulva, incluindo reconstruções após mutilação genital feminina e cirurgias de afirmação de gênero.

Tecnologia permitiu visualizar estruturas nunca vistas

O clitóris é descrito pelos pesquisadores como um dos órgãos menos estudados do corpo humano. Grande parte de sua estrutura está localizada internamente, cercada por ossos da pelve e outros órgãos, o que dificulta sua análise por métodos tradicionais de dissecação.

Estudo identificou o trajeto do nervo dorsal do clitóris (em amarelo), principal via sensorial do órgão, e detalhou sua distribuição ao longo da anatomia clitoriana – Imagem: Ju Young Lee et al.

Para superar essa limitação, a equipe utilizou uma técnica chamada Hierarchical Phase-Contrast Tomography (HiP-CT), que emprega raios X gerados por um síncrotron para produzir imagens em escala micrométrica. Foram analisadas duas amostras pélvicas femininas obtidas de doadoras pós-morte com 59 e 69 anos.

As imagens revelaram com alto nível de detalhe o percurso do nervo dorsal do clitóris, principal via responsável pela sensibilidade do órgão. Os pesquisadores identificaram cinco grandes troncos nervosos dentro da glande clitoriana, com diâmetros variando entre 0,23 e 0,70 milímetro. Essas estruturas apresentaram um padrão de ramificação semelhante ao de uma árvore, distribuindo-se em direção à superfície da glande.

Reconstrução tridimensional e cortes anatômicos mostram cinco grandes troncos nervosos no interior da glande do clitóris, revelados por imagens de alta resolução obtidas pelos pesquisadores
Imagem do estudo destaca cinco troncos nervosos identificados na glande do clitóris, com ramificações que se estendem em direção à superfície da estrutura – Imagem: Ju Young Lee et al.

Ramificações chegam ao capuz clitoriano e ao monte púbico

Além da glande, o estudo mostrou que parte das ramificações do nervo dorsal do clitóris se estende até o capuz clitoriano e o monte púbico, regiões cuja inervação não havia sido descrita com esse grau de detalhamento.

Imagem do estudo mostra o trajeto do nervo labial posterior ao redor do clitóris em diferentes ângulos e cortes anatômicos, destacando sua distribuição nos tecidos da região genital feminina
Visualização 3D e cortes anatômicos revelam o percurso do nervo labial posterior (em laranja), que inerva estruturas ao redor do clitóris e dos lábios genitais – Imagem: Ju Young Lee et al.

Os pesquisadores também mapearam o chamado nervo labial posterior, ramo dos nervos perineais. A análise indicou que ele não se limita à inervação dos grandes e pequenos lábios, como já era conhecido, mas também alcança áreas ao redor do corpo do clitóris.

De acordo com os autores, os resultados ajudam a corrigir uma visão presente em parte da literatura médica, segundo a qual os nervos do clitóris diminuiriam gradualmente ao se aproximar da glande. As imagens obtidas pela equipe indicam o contrário: os nervos continuam presentes e se dividem em uma rede complexa de ramificações.

Impacto potencial em cirurgias

Os autores afirmam que o novo mapa anatômico pode auxiliar médicos em procedimentos realizados na região genital feminina. Entre as aplicações citadas estão cirurgias reconstrutivas para sobreviventes de mutilação genital feminina e procedimentos estéticos que envolvem incisões próximas ao capuz clitoriano.

O estudo destaca que uma compreensão mais precisa dos trajetos nervosos pode contribuir para a preservação da sensibilidade durante intervenções cirúrgicas. Os pesquisadores também sugerem que as descobertas podem levar à revisão de áreas consideradas de risco para danos nervosos em determinadas operações.

Apesar dos resultados, a equipe reconhece limitações. A pesquisa analisou apenas duas amostras de doadoras pós-menopausa e não incluiu o mapeamento do sistema nervoso autônomo. Os autores defendem que estudos futuros com um número maior de participantes e diferentes faixas etárias serão necessários para ampliar o conhecimento sobre a inervação do clitóris.

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