Os brasileiros mais ricos passaram a concentrar uma fatia recorde da renda nacional sob o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, segundo dados extraídos de declarações de Imposto de Renda, oferecendo um contraponto marcante ao esforço do líder de esquerda em convencer os eleitores de que os ganhos econômicos foram amplamente distribuídos durante sua administração, enquanto busca a reeleição em outubro. Lula tem apontado a queda da desigualdade, medida por um coeficiente de Gini que atingiu o menor nível da série histórica em 2024, e a alta do emprego como evidências de que sua administração prioriza os brasileiros mais pobres. Os dados tributários, porém, pintam um quadro mais complexo: juros elevados, em parte consequência do aumento dos gastos públicos, alimentaram um boom da renda financeira que beneficiou de forma desproporcional os mais ricos, mesmo enquanto um mercado de trabalho mais forte, ganhos salariais reais e programas sociais robustecidos melhoraram as condições na base da distribuição de renda. “Se os benefícios concedidos pelo governo, por um lado, forem de fato bem direcionados, eles podem ter um efeito social positivo”, disse Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Mundial. “Mas, por outro lado, a aritmética do endividamento não tem como ser contornada: ela joga na outra direção.” Segundo Canuto, a política monetária no Brasil teve de lidar com uma política fiscal “ultraexpansionista”, e as preocupações com o aumento da dívida pública elevaram o prêmio exigido pelos investidores para deter títulos brasileiros. Como resultado, custos mais altos de financiamento do governo geram pagamentos maiores de juros, beneficiando de forma desproporcional famílias de renda elevada, que detêm mais ativos financeiros. Estimativas do pesquisador de desigualdade Sergio Gobetti com base na abertura de dados de IR pela Receita Federal mostram que o 0,1% dos brasileiros mais ricos elevaram sua participação na renda nacional para um recorde de 13,1% em 2024, ante 10,2% em 2020. Nesse período, o Banco Central elevou a taxa Selic de uma mínima histórica de 2% para 12,25% para conter a inflação pós-pandemia e desacelerar a atividade econômica em meio aos estímulos fiscais do governo. Como metade da dívida pública brasileira está atrelada à taxa Selic por meio das chamadas Letras Financeiras do Tesouro Nacional (LFTs), custos mais altos de financiamento rapidamente se traduzem em maiores retornos para investidores, criando um paradoxo no qual os esforços para reduzir a inflação também ajudam os brasileiros mais ricos a ampliar sua fatia da renda nacional. “Quanto mais eu subo os juros, mais renda o detentor da LFT tem”, disse o presidente do BC, Gabriel Galípolo, ao Senado em maio. O fenômeno antecede Lula, tendo ocorrido também durante o governo de seu rival, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Mas ele ganhou força à medida que a dívida pública acelerou e o Brasil passou a depender mais de títulos pós-fixados para se financiar diante de persistentes preocupações fiscais e um ambiente global mais desafiador. Desde que Lula assumiu o cargo, a dívida bruta do governo geral aumentou mais de 10 pontos percentuais do PIB, para 82,5%, enquanto o Tesouro projeta que a participação das LFTs na dívida poderá avançar quase 15 pontos percentuais, para um recorde de até 53% neste ano. Como resultado, juros altos hoje incidem sobre um estoque maior de dívida e sobre uma parcela também mais gorda de papéis indexados diretamente à Selic. (Por Reuters)



