Home / Notícias / Novo CEO da Apple: Os desafios que John Ternus vai enfrentar

Novo CEO da Apple: Os desafios que John Ternus vai enfrentar

Novo CEO da Apple: Os desafios que John Ternus vai enfrentar

O engenheiro John Ternus assume o posto de CEO da Apple, no lugar de Tim Cook, nesta terça-feira (1º). Ao longo dos seus 25 anos na empresa, Ternus trabalhou em design de produtos e engenharia de hardware – departamento onde sentou na cadeira de vice-presidente por 13 anos.

“Tim Cook era mais voltado para processos, enquanto Ternus é mais ligado à tecnologia e ao produto”, analisa Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação, em entrevista ao Olhar Digital. “No passado, isso poderia gerar muita desconfiança. Mas o sucesso que Tim Cook teve cria esse ambiente de confiança.”

Nesta matéria, o Olhar Digital te conta quem é John Ternus e te explica quais são os principais desafios que ele deve enfrentar na cadeira de CEO da Apple.

Quem é John Ternus

O engenheiro de 50 anos é conhecido por sua constância, pragmatismo e foco em resultados. Formado pela Universidade da Pensilvânia, Ternus trabalhou na Virtual Research Systems antes de ingressar na Apple, em 2001.

Ternus começou a trabalhar na empresa na equipe de design de produtos. Em 2013, chegou ao cargo de vice-presidente de engenharia de hardware. Em 2021, foi promovido a vice-presidente sênior. Isso fez dele o membro mais jovem da equipe executiva principal. A partir dali, ele reportava para Tim Cook de maneira direta.

Foi sob o comando de Ternus que a engenharia de hardware da Apple desenvolveu produtos que se tornariam icônicos – para o bem e para o mal. Entre os acertos, dá para citar o Apple Watch e os AirPods. Entre os tropeços, está o Apple Vision Pro, óculos de realidade mista (virtual e aumentada) que não venderam nem despertaram tanto interesse quanto a companhia esperava.

Na era Tim Cook, a Apple lançou dispositivos que ‘pegaram’ e outros que nem tanto – Imagem: Olhar Digital via ChatGPT

Foi também sob o comando de Ternus que ocorreu a transição dos processadores Intel para processadores próprios (Apple Silicon). O “grande acerto” recente do engenheiro foi o lançamento do MacBook Neo, em março de 2026.

“Talvez tenha sido justamente o golaço que faltava para a divisão do John Ternus para ele se tornar CEO porque tem tudo a ver com hardware”, diz o especialista em tecnologia e inovação.

Longe de ser uma figura inacessível, Ternus se consolidou na Apple como um líder pé no chão focado em execução e controle de custos. Em 2018, por exemplo, se discutia na empresa a inserção de uma tecnologia de mapeamento a laser nos iPhones. Foi Ternus quem sugeriu incluir esse recurso apenas dos modelos Pro. Na prática, isso equilibrou margens de lucro sem frustrar o consumidor médio.

A mesma abordagem pragmática foi aplicada à agenda de sustentabilidade da Apple. Sob o comando de Ternus, a engenharia da empresa passou a focar no aumento da durabilidade e na facilidade de reparo dos aparelhos, além da redução da pegada de carbono na fabricação. Foi sob sua gestão que a empresa expandiu o uso de alumínio reciclado nos chassis e introduziu o uso de titânio impresso em 3D em dispositivos como o Apple Watch Ultra.

John Ternus tem a mente de um engenheiro, a alma de um inovador e o coração para liderar com integridade e honra.

Tim Cook, ex-CEO da Apple, em comunicado escrito em abril.

No último dia como CEO da Apple, Tim Cook enviou uma carta aos funcionários da empresa para se despedir do cargo. Na mensagem, o executivo agradeceu à equipe, falou sobre sua relação com a companhia e destacou o trabalho construído coletivamente ao longo dos anos.

“Este é um momento que eu sempre soube que chegaria um dia e, ainda assim, é difícil acreditar que ele chegou e que estou escrevendo estas palavras. (…) Poucas pessoas entendem o que é necessário para criar produtos que mudam o mundo da maneira que John entende, e eu não poderia estar mais animado com a liderança dele” – escreveu Tim Cook.

Leia a carta aqui.

John Ternus e Tim Cook rindo enquanto caminham na Apple
Cook aconselha que Ternus foque em desenvolver produtos que ‘enriqueçam’ as vidas dos usuários – Imagem: Divulgação/Apple

Para Igreja, parte do legado de Cook é ter provado que “você não precisa necessariamente ter um perfil de CEO que seja tão icônico do ponto de vista da persona, como era o Steve Jobs”. “Você pode ter alguém mais discreto, alguém mais técnico, alguém com outras características. Esse é um dos aspectos que tranquilizam essa passagem de bastão para John Ternus.”

A ascensão de Ternus foi desenhada nos bastidores ao longo dos últimos meses, segundo o jornal The New York Times. Tim Cook já vinha delegando ao engenheiro a supervisão informal das equipes de design de software e de prototipagem de hardware.

Agora, o engenheiro assume o controle de um colosso avaliado em quase US$ 5 trilhões (aproximadamente R$ 26 trilhões). Com a mudança formal, a estrutura executiva da Apple também se reorganiza. O antigo braço direito de Ternus, Tom Marieb, assume a engenharia de hardware e passa a se reportar a Johny Srouji, que assume uma divisão unificada de hardware e tecnologias.

Enquanto Cook passa a ocupar o cargo de presidente executivo do conselho da Apple, Ternus herda o desafio de responder às cobranças do mercado e dos usuários sobre o atraso da empresa na corrida da inteligência artificial (IA) generativa.

O primeiro grande teste de palco do CEO já tem data marcada e não está longe. Em 9 de setembro, Ternus deve anunciar a linha iPhone 18. E um novo tipo de iPhone: o dobrável. Seria histórico para a Apple. Mas “a Samsung está anos-luz na frente”, observa Igreja.

Desafios que o novo CEO da Apple deve enfrentar

Para o especialista em tecnologia e inovação, o grande desafio na mesa de Ternus é lidar com o avanço da IA generativa (aquela que gera texto, imagem, vídeo, áudio). Igreja aponta que a Apple tem adotado uma estratégia “bastante diferente” das outras big techs.

“Fez essa grande parceria com a Alphabet para usar o Gemini e vai focar e dobrar a aposta nas suas fortalezas, no sistema operacional e no hardware”, diz Igreja. “A empresa vai ter que escolher suas batalhas e evitar erros como o que aconteceu com o Apple Vision Pro. Ao mesmo tempo, vai enfrentar uma concorrência crescente.”

“Como a Apple vai capitalizar essa era da inteligência artificial se não tem infraestrutura, se não tem modelos?”, questiona o especialista. “Se a inteligência artificial se tornar um driver monumental de receita, como apostam as outras big techs, a Apple não tem nuvem enquanto prestação de serviço. Como ela vai surfar tudo isso? E quais são as próximas gerações de hardware?”

A resposta em hardware deve ser novos produtos com IA. Para tentar compensar esse atraso, Ternus reorganizou a engenharia de hardware da Apple. A ideia é que ela funcione integrada a uma plataforma interna de IA dedicada ao desenvolvimento e controle de qualidade de produtos. 

Foto estilo retrato de John Ternus, da Apple
O maior desafio imediato para John Ternus enquanto novo CEO da Apple é o avanço da IA – Imagem: Apple

Sob sua liderança, a empresa engatilhou uma nova linha de wearables e dispositivos para casas inteligentes focados nessa tecnologia. O projeto inclui óculos inteligentes, AirPods equipados com câmeras, pingentes vestíveis, visores domésticos com reconhecimento facial e robôs de mesa.

“São enormes desafios, sem contar as questões geopolíticas e as pressões que a empresa sofreu recentemente para voltar a fabricar nos Estados Unidos”, diz Igreja.

Em seu novo cargo na Apple, Tim Cook vai intermediar o diálogo com reguladores e governos mundo afora. Mas a Apple ainda fabrica muita coisa na China. E isso deve continuar a ser um problema em meio à guerra comercial entre EUA e o país asiático.

Outro grande desafio que Ternus deve enfrentar é a manutenção das margens de lucro históricas da empresa. Para começar, o lucrativo ecossistema de serviços desenvolvido na era Cook enfrenta um cerco regulatório sem precedentes. Na Califórnia, por exemplo, decisões judiciais recentes reduziram as taxas cobradas de desenvolvedores na App Store, permitindo que eles cobrem por fora da plataforma. Isso derrubou a receita de comissões da Apple nos EUA em 6%.

Além disso, existe a escassez de componentes mundo afora causada pelo boom da IA. Gigantes de tecnologia focadas em IA têm consumido a capacidade de produção de chips de memória e de lógica. Isso, por sua vez, tem encarecido os custos de fabricação. E provocado filas de espera e falta de estoque para produtos cruciais para a Apple, como os computadores Mac. 

A partir de agora, o engenheiro terá que ditar os rumos da big tech durante uma revolução cujo impacto é comparável ao advento da internet, do smartphone e das redes sociais. Aquelas revoluções que mudam profundamente nosso jeito de viver. Haja coração.

Assista abaixo uma entrevista com Arthur Igreja no Olhar Digital News que foi ao ar quando a empresa anunciou a sucessão de Tim Cook:

O post Novo CEO da Apple: Os desafios que John Ternus vai enfrentar apareceu primeiro em Olhar Digital.