Home / Notícias / Estudo liga desregulação do sono a inflamação no cérebro

Estudo liga desregulação do sono a inflamação no cérebro

Estudo liga desregulação do sono a inflamação no cérebro

Horários irregulares de sono podem provocar alterações duradouras no cérebro, mesmo após meses de retorno a uma rotina normal. É o que sugere um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Texas A&M, nos Estados Unidos, que identificou sinais persistentes de inflamação e pior desempenho cognitivo em camundongos submetidos a mudanças repetidas no ciclo de luz e escuridão.

O trabalho foi conduzido pela pesquisadora Karienn A. de Souza em parceria com David Earnest. A equipe buscou investigar se a interrupção dos ritmos circadianos, por si só, seria capaz de acelerar o declínio cognitivo observado com o envelhecimento. O estudo foi publicado na revista científica The Journal of Neuroinflammation.

Testes em camundongos mostraram que horários irregulares de sono podem provocar alterações duradouras no cérebro – Imagem: Aleksandr Pobeda/Shutterstock

Danos cognitivos persistem após normalização

Para reproduzir um cenário semelhante ao enfrentado por trabalhadores submetidos a escalas rotativas, os pesquisadores criaram um modelo experimental com camundongos. Durante 80 dias no início da vida adulta, um grupo teve o ciclo de iluminação das gaiolas adiantado em 12 horas a cada cinco dias, enquanto o grupo de controle permaneceu em um ciclo estável.

Após esse período, os animais voltaram a uma rotina normal por cerca de sete meses. Na meia-idade, equivalente a aproximadamente 13 ou 14 meses de vida dos camundongos, ambos os grupos foram submetidos a testes cognitivos.

Os animais que passaram pela fase de desregulação circadiana apresentaram dificuldades no labirinto de Barnes, um teste que avalia memória espacial. Eles percorreram trajetos mais longos e erraram mais durante a busca pela saída, registrando resultados semelhantes aos observados em camundongos naturalmente mais velhos.

cérebro com um relógio sobre ele
Mesmo depois de retomar um ciclo de sono regular, os camundongos mantiveram o declínio cognitivo – Imagem: Pixel-Shot / Shutterstock

Segundo os pesquisadores, o resultado chama atenção porque os testes foram realizados meses após o restabelecimento de um ciclo regular. A interrupção ocorrida no início da vida adulta pareceu antecipar o declínio cognitivo em comparação com animais mantidos em ritmos circadianos estáveis.

Sistema imunológico em estado inflamatório

Para entender os mecanismos envolvidos, a equipe analisou o sistema imunológico dos animais. Os camundongos expostos à desregulação circadiana apresentavam cerca de 40% mais células B no baço, células de defesa importantes para a resposta imunológica.

Os pesquisadores também observaram um aumento de marcadores associados à ativação e à inflamação dessas células. Em contrapartida, marcadores ligados a funções anti-inflamatórias apareceram em menor quantidade. Houve ainda redução das chamadas células T reguladoras, responsáveis por ajudar a controlar respostas imunológicas excessivas.

Os resultados mostraram uma correlação entre esses sinais inflamatórios e o desempenho cognitivo: quanto maior o número de células B, pior foi o resultado dos animais nos testes de memória. Esse padrão continuou sendo observado meses depois da normalização do ciclo de iluminação.

Alterações na microglia cerebral

Os cientistas também identificaram um aumento da proporção de células B inflamatórias nas membranas que envolvem o cérebro dos animais submetidos à desregulação circadiana.

No hipocampo, região associada à memória espacial, foram observadas mudanças na microglia, conjunto de células imunológicas residentes do cérebro. Normalmente, essas células apresentam prolongamentos finos e ramificados que ajudam a monitorar o tecido cerebral. Nos animais do grupo experimental, elas se mostraram maiores, mais arredondadas e com ramificações adicionais concentradas ao redor do corpo celular.

Os pesquisadores classificam esse quadro como um estado de “pré-ativação por estresse” (“stress-primed”). Embora as células estivessem presentes em maior número, sua aparência sugeria uma alteração em relação ao padrão normalmente associado à vigilância e manutenção do tecido cerebral.

Implicações para prevenção de demência

Estudos anteriores já haviam associado alterações semelhantes na microglia ao acúmulo de resíduos celulares e proteínas anormais no cérebro. No entanto, os autores ressaltam que as imagens analisadas mostram apenas a aparência das células, sem revelar diretamente como elas estão atuando no tecido.

De acordo com Souza, cerca de 97% do risco para Alzheimer está relacionado a fatores ambientais, e não exclusivamente à genética. Nesse contexto, a regularidade do sono pode se juntar a fatores como alimentação e atividade física entre os hábitos que merecem atenção ao longo da vida.

Cabeça humana formada por peças de quebra-cabeça; algumas estão faltando
Risco para Alzheimer está relacionado a fatores ambientais, não exclusivamente à genética – Imagem: SewCreamStudio / Shutterstock

Os resultados indicam que alterações prolongadas no ritmo circadiano durante o início da vida adulta podem favorecer um estado inflamatório persistente. Atualmente, a equipe investiga se partículas derivadas de células-tronco podem impedir que a microglia entre nesse estado associado ao estresse, com o objetivo de atuar sobre a inflamação antes do surgimento de sinais de declínio cognitivo.

Embora o estudo tenha sido realizado em camundongos, os resultados ajudam a investigar mecanismos relacionados a alterações do sono e ao envelhecimento cognitivo que também são alvo de pesquisas em humanos.

O post Estudo liga desregulação do sono a inflamação no cérebro apareceu primeiro em Olhar Digital.