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Arqueólogos confirmam localização da lendária cidade perdida “Alexandria do Tigre” no Iraque

Arqueólogos confirmam localização da lendária cidade perdida “Alexandria do Tigre” no Iraque

Uma equipe internacional de arqueólogos confirmou a identificação do sítio de Jebel Khayaber, no sul do Iraque, como a cidade perdida de Alexandria às margens do rio Tigre. Fundada originalmente por Alexandre, o Grande, por volta de 324 a.C., a metrópole – mais tarde conhecida como Charax Spasinou – serviu como um dos centros comerciais mais vitais da Antiguidade, conectando o Golfo Pérsico às grandes capitais mesopotâmicas.

Mapa destaca a localização estratégica de Charax Spasinou e o Reino de Mesene (área em verde) em relação a outros grandes centros comerciais da Antiguidade, como Seleucia, Palmira e a Alexandria egípcia – Economies of the Edge / Reprodução

Mapeamento de alta tecnologia revela grade urbana colossal

Após décadas de conflitos que impediram o trabalho de campo, as explorações iniciadas em 2016 pela Universidade de Manchester e pela Universidade de Konstanz utilizaram métodos não invasivos para enxergar abaixo do solo. Por meio de geofísica (magnetometria de césio) e imagens de drones, os pesquisadores mapearam uma cidade de quase 7 km².

Segundo o estudo publicado no periódico Economies of the Edge, a cidade apresentava:

  • Planejamento superior: o sítio apresenta uma grade urbana com blocos residenciais de 160 x 85 metros, uma das maiores conhecidas do mundo antigo.
  • Muralhas imponentes: o assentamento é cercado por um aterro defensivo que ainda hoje se eleva a 7 metros acima da planície.
  • Setores especializados: o mapeamento revelou uma divisão clara entre áreas residenciais, uma zona industrial com fornos e um complexo palaciano.

O “hub” comercial do Império Arsacida

Diferente da visão tradicional que foca apenas no comércio entre Roma e China, a descoberta de Charax Spasinou destaca a importância dos mercados locais. A cidade funcionava como um hub, onde mercadorias vindas da Índia por mar eram transferidas para barcaças fluviais ou caravanas rumo a cidades como Seleucia e Ctesiphon.

Entre os produtos que passavam pelo porto estavam pérolas, tecidos finos, vinhos, tâmaras, ouro e madeiras exóticas como teca e ébano. O local também abrigava colônias de mercadores estrangeiros, incluindo uma influente comunidade de Palmira.

Luxo e política: o Palácio de Mesene

As escavações e sondagens geofísicas identificaram um palácio de aproximadamente 110 x 100 metros. O edifício possuía um pátio peristilo com colunas caneladas de tijolo cozido e reboco de alta qualidade, comparável a estruturas reais em Nipur.

Evidências sugerem que a cidade foi palco de lutas de poder dentro da dinastia Arsacida. Uma estátua de bronze de Héracles, encontrada anteriormente na região, possui uma inscrição bilíngue que relata a guerra de 150/151 d.C., quando o Rei dos Reis, Vologases III, conquistou a cidade e removeu o rei local, Meredates.

O fim causado pela mudança climática

O declínio da metrópole não foi causado por uma conquista dramática, mas por fatores ambientais. O acúmulo de sedimentos empurrou a linha costeira para longe da cidade, enquanto o deslocamento do curso do rio Tigre dificultou o acesso dos navios ao porto.

Embora tenha deixado de ser capital por volta de 410 d.C., registros indicam que bispos cristãos residiram no local até pelo menos 605 d.C. Com o tempo, as inundações anuais cobriram as ruínas, preservando o traçado urbano até a redescoberta moderna.

Alexandria do Egito vs. Alexandria do Tigre: semelhanças e diferenças

Embora a versão egípcia seja mais conhecida, o estudo revela paralelos fascinantes e distinções cruciais entre as duas metrópoles:

  • Fundação única: Alexandria no Tigre foi o único outro grande centro fundado por Alexandre, o Grande, a oeste do Irã oriental, além da Alexandria no Egito.
  • Papéis paralelos: ambas foram projetadas para serem pontos de conexão entre o mar e rotas fluviais. Enquanto a Alexandria do Nilo ligava o Mediterrâneo ao interior do Egito, a do Tigre conectava o Golfo Pérsico aos centros urbanos da Babilônia e de Elam.
  • Escala e cultura: as duas cidades foram planejadas em grande escala pelos sucessores de Alexandre e se tornaram centros efervescentes da cultura helenística.
  • Diferença de prestígio: apesar das semelhanças, a Alexandria-Charax nunca alcançou a mesma importância suprema que sua contraparte egípcia ao longo da história.
  • Desafios geográficos: ao contrário da versão no Egito, a Alexandria do Tigre foi destruída por inundações duas vezes logo após sua fundação. Além disso, o rápido acúmulo de sedimentos (siltagem) acabou afastando a cidade da costa, isolando seu porto.

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