{"id":4093,"date":"2026-03-08T12:05:53","date_gmt":"2026-03-08T15:05:53","guid":{"rendered":"https:\/\/ilheusnews.com.br\/2026\/03\/08\/sxsw-2026-menos-tech-no-maior-festival-de-tech-do-mundo\/"},"modified":"2026-03-08T12:05:53","modified_gmt":"2026-03-08T15:05:53","slug":"sxsw-2026-menos-tech-no-maior-festival-de-tech-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ilheusnews.com.br\/?p=4093","title":{"rendered":"SXSW 2026: Menos tech no maior festival de tech do mundo"},"content":{"rendered":"<div>\n<p><em>O SXSW come\u00e7a no dia 12 de mar\u00e7o em Austin, no Texas, e por anos carregou o t\u00edtulo de maior festival de tecnologia do mundo \u2014 o tipo de evento cujos keynotes pautam coberturas, viram refer\u00eancia e ecoam muito al\u00e9m de mar\u00e7o.<\/em><\/p>\n<p><strong>O que a escolha dos keynotes do SXSW deixam de recado<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 uma d\u00e9cada frequentando o SXSW, aprendi a prestar aten\u00e7\u00e3o nos keynotes menos pelo que dizem e mais pelo que os curadores querem dizer sobre o momento que vivemos. N\u00e3o s\u00e3o apenas palestras grandes (ou s\u00f3). Elas funcionam como uma esp\u00e9cie de b\u00fassola cultural do festival, as ideias que v\u00e3o ecoar nos corredores, nos pain\u00e9is menores e nas conversas sobre tecnologia ao longo do ano. Acho um grande poder quando se pautam essas hist\u00f3rias. Mas o que acho que eles querem falar sobre esse ano?<\/p>\n<p>Analisando a lista de confirmados, senti que o maior festival de tecnologia do mundo parece estar com vontade de falar sobre tudo, menos tecnologia. Ou, mais precisamente, est\u00e1 usando tecnologia como pano de fundo para chegar a outros lugares:\u00a0 cultura, pol\u00edtica, natureza, emo\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p><strong>Quem controla o imagin\u00e1rio quando todos podem produzir imagens<\/strong><\/p>\n<p>A presen\u00e7a de <a href=\"https:\/\/schedule.sxsw.com\/events\/PP1150590\">Steven Spielberg<\/a> num festival de tecnologia pode parecer \u00f3bvia demais \u2014 cinema, entretenimento, tudo certo. Mas acho que a escolha diz mais do que parece.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de Steven Spielberg num festival de tecnologia pode parecer calculada demais e talvez seja. Ele estar\u00e1 em Austin para divulgar <em><a href=\"https:\/\/www.imdb.com\/pt\/title\/tt15047880\/\">Disclosure Day<\/a><\/em>, seu novo filme de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica com Emily Blunt, sobre OVNIs, com estreia marcada para junho. Mas a escolha dele como keynote diz mais do que parece, especialmente agora.<\/p>\n<p>Spielberg passou d\u00e9cadas ajudando a construir o imagin\u00e1rio coletivo sobre tecnologia e futuro. O que me interessa n\u00e3o \u00e9 celebrar isso, mas a pergunta que a presen\u00e7a dele coloca neste momento espec\u00edfico: quem molda esse imagin\u00e1rio quando produzir imagens, narrativas e mundos ficcionais se torna acess\u00edvel a qualquer pessoa com uma ferramenta de IA generativa? O que muda na cultura \u2014 e no cinema \u2014 quando a autoria se dilui?<\/p>\n<p><strong>Ainda h\u00e1 espa\u00e7o para ativismo nos Estados Unidos de 2026?<\/strong><\/p>\n<p>Jane Fonda sobe ao palco com uma palestra chamada <a href=\"https:\/\/schedule.sxsw.com\/events\/PP1150812\"><em>Say It Louder: Artists, Activism &amp; the First Amendment<\/em><\/a>. O t\u00edtulo j\u00e1 diz o suficiente.<\/p>\n<p>O que me interessa na escolha dela n\u00e3o \u00e9 a trajet\u00f3ria, que \u00e9 longa e conhecida, mas o <em>timing<\/em>. Num momento em que liberdade de express\u00e3o virou campo de batalha pol\u00edtico, em que plataformas decidem o que circula e o que desaparece, trazer uma figura com essa hist\u00f3ria para um keynote \u00e9 uma declara\u00e7\u00e3o de curadoria.<\/p>\n<p>Vou ser honesta: n\u00e3o sei se acredito que artistas percebam essas tens\u00f5es antes de todo mundo. Mas sinto um certo al\u00edvio de encontrar espa\u00e7o na curadoria do SXSW para o ativismo, para ideias que consideram certas \u2014 especialmente na distopia americana de 2026. Num festival que corre o risco de virar vitrine corporativa, isso n\u00e3o \u00e9 pouca coisa.<\/p>\n<p><strong>Quando a IA ouve outras esp\u00e9cies<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/schedule.sxsw.com\/contributors\/2241151\">Aza Raskin<\/a> \u00e9 o keynote que mais me interessa este ano. Cofundador do <a href=\"https:\/\/www.earthspecies.org\/\">Earth Species Project<\/a>, ele trabalha em uma das aplica\u00e7\u00f5es mais perturbadoras \u2014 no bom sentido \u2014 da intelig\u00eancia artificial: usar o aprendizado de m\u00e1quina para analisar vocaliza\u00e7\u00f5es animais e identificar padr\u00f5es que possam indicar linguagem.<\/p>\n<p>O que me fascina n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a ci\u00eancia. \u00c9 o deslocamento de perspectiva que a ideia prop\u00f5e e que parece fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica at\u00e9 voc\u00ea perceber que n\u00e3o \u00e9. Durante anos, a pergunta dominante foi como fazer m\u00e1quinas falarem melhor com humanos. Raskin est\u00e1 fazendo outra: e se a IA nos ajudasse a ouvir o resto do planeta? As implica\u00e7\u00f5es v\u00e3o muito al\u00e9m da biologia \u2014 tocam em como entendemos consci\u00eancia, comunica\u00e7\u00e3o e, no limite, o que consideramos digno de prote\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p><strong>O pr\u00f3ximo passo da IA: ler emo\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/schedule.sxsw.com\/events\/PP1149204\">Rana el Kaliouby<\/a> aparece na programa\u00e7\u00e3o com um trabalho que acompanho h\u00e1 anos. Pioneira em intelig\u00eancia artificial emocional, cofundadora da Affectiva e hoje s\u00f3cia do fundo Blue Tulip Ventures, ela dedica sua carreira a uma miss\u00e3o que se resume bem em poucas palavras: humanizar a tecnologia antes que ela nos desumanize.<\/p>\n<p>A palestra se chama <em><a href=\"https:\/\/schedule.sxsw.com\/events\/PP1149204\">W<\/a><a href=\"http:\/\/affectiva\/\">hy the Future of AI Must be Human Centric.<\/a><\/em> O t\u00edtulo poderia soar como mais um mantra corporativo se n\u00e3o viesse de algu\u00e9m que passou duas d\u00e9cadas construindo sistemas capazes de ler microexpress\u00f5es faciais em tempo real. Ela sabe exatamente o que essa tecnologia pode fazer. E \u00e9 justamente por isso que as perguntas que ela levanta \u2014 como inovar com inten\u00e7\u00e3o, como desenhar empresas cada vez mais orientadas por IA sem abrir m\u00e3o da resili\u00eancia humana \u2014 ganham outro peso.<\/p>\n<p><strong>O que esses keynotes dizem sobre o SXSW deste ano<\/strong><\/p>\n<p>Quando coloco esses nomes lado a lado, o padr\u00e3o que percebo \u00e9 o seguinte: a tecnologia n\u00e3o \u00e9 o assunto, ela \u00e9 a infraestrutura invis\u00edvel por baixo de tudo. Spielberg fala de imagin\u00e1rio, Fonda de ativismo, Raskin de linguagem animal, el Kaliouby de emo\u00e7\u00e3o. A IA aparece em todos, mas como pano de fundo, o que, curiosamente, talvez seja o sinal mais claro de que ela j\u00e1 virou infraestrutura, ub\u00edqua demais para ser protagonista.<\/p>\n<p>Tenho um pouco de pregui\u00e7a da dualidade humano versus tech. Mas reconhe\u00e7o que a curadoria deste ano est\u00e1 fazendo algo mais interessante do que essa oposi\u00e7\u00e3o: est\u00e1 tratando a tecnologia como condi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o como tema.<\/p>\n<p>Pode ser cedo para chamar isso de virada. Mas tratar a IA como infraestrutura \u2014 e n\u00e3o como tema \u2014 \u00e9, no m\u00ednimo, a aposta mais radical que o festival fez em anos.<\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/olhardigital.com.br\/2026\/03\/08\/colunistas\/sxsw-2026-keynotes-tecnologia-cultura\/\">SXSW 2026: Menos tech no maior festival de tech do mundo<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/olhardigital.com.br\/\">Olhar Digital<\/a>.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O SXSW come\u00e7a no dia 12 de mar\u00e7o em Austin, no Texas, e por anos carregou o t\u00edtulo de maior festival de tecnologia do mundo \u2014 o tipo de evento cujos keynotes pautam coberturas, viram refer\u00eancia e ecoam muito al\u00e9m de mar\u00e7o. 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