{"id":13576,"date":"2026-08-07T06:01:54","date_gmt":"2026-08-07T09:01:54","guid":{"rendered":"https:\/\/ilheusnews.com.br\/?p=13576"},"modified":"2026-08-07T06:01:54","modified_gmt":"2026-08-07T09:01:54","slug":"verme-do-diabo-revela-como-a-vida-sobrevive-nas-regioes-mais-profundas-da-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ilheusnews.com.br\/?p=13576","title":{"rendered":"Verme-do-diabo revela como a vida sobrevive nas regi\u00f5es mais profundas da Terra"},"content":{"rendered":"<div>\n<p>Um pequeno verme encontrado nas profundezas de uma mina de ouro na \u00c1frica do Sul alterou a vis\u00e3o dos cientistas sobre os limites da vida no planeta. O animal, identificado em 2011 como<a href=\"https:\/\/www.nationalgeographic.com\/science\/article\/meet-mephisto-the-worm-that-rules-the-underworld\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> Halicephalobus mephisto<\/a>, tornou-se o primeiro nematoide conhecido a habitar regi\u00f5es t\u00e3o profundas da crosta terrestre.<\/p>\n<p>A descoberta ocorreu ap\u00f3s pesquisadores filtrarem milhares de litros de \u00e1gua subterr\u00e2nea retirada de rochas localizadas a cerca de 1,3 km abaixo da superf\u00edcie, em 2008. O estudo revelou que ambientes escuros, quentes e com pouco contato com a superf\u00edcie podem abrigar ecossistemas complexos.<\/p>\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o sobre o chamado <em><strong>verme-do-diabo<\/strong><\/em> mostrou que algumas formas de vida conseguem sobreviver sem depender diretamente da luz solar ou de uma atmosfera rica em oxig\u00eanio. Os resultados abriram novas perspectivas sobre a adapta\u00e7\u00e3o dos organismos e sobre as condi\u00e7\u00f5es em que a vida pode existir.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-o-animal-que-ampliou-a-fronteira-da-biosfera-terrestre\">O animal que ampliou a fronteira da biosfera terrestre<\/h2>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ilustra\u00e7\u00e3o digital do Halicephalobus mephisto, vulgo Verme-do-Diabo \u2013 (Reprodu\u00e7\u00e3o: Gaetan Borgonie et al, Nature, 2011)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Durante d\u00e9cadas, muitos pesquisadores acreditavam que a vida animal dificilmente poderia existir em grandes profundidades. At\u00e9 a d\u00e9cada de 1980, a hip\u00f3tese predominante entre bi\u00f3logos era que poucos cent\u00edmetros abaixo do solo j\u00e1 representavam um limite para organismos vivos mais complexos.<\/p>\n<p>Esse cen\u00e1rio come\u00e7ou a mudar nos anos 1990, quando surgiram evid\u00eancias de microrganismos vivendo quil\u00f4metros abaixo da superf\u00edcie. A partir dos anos 2000, o bi\u00f3logo especializado em nematoides Gaetan Borgonie passou a investigar se vermes tamb\u00e9m poderiam ocupar esses ambientes extremos.<\/p>\n<p>A busca levou Borgonie e outros especialistas \u00e0 mina Beatrix, na \u00c1frica do Sul, onde foram analisadas \u00e1guas que circulavam dentro de fissuras das rochas subterr\u00e2neas. A equipe instalou filtros capazes de capturar organismos microsc\u00f3picos e, ap\u00f3s examinar mais de 6 mil litros de \u00e1gua, encontrou um verme at\u00e9 ent\u00e3o desconhecido pela ci\u00eancia.<\/p>\n<p>A pesquisa foi ampliada para outras minas do pa\u00eds. Em uma delas, os cientistas filtraram mais de 12 milh\u00f5es de litros de \u00e1gua e encontraram diferentes esp\u00e9cies de nematoides, al\u00e9m de fungos, invertebrados e outros microrganismos.<\/p>\n<p>O exemplar que recebeu o nome de <em><strong>Halicephalobus mephisto<\/strong><\/em> apresentava uma caracter\u00edstica decisiva para sua preserva\u00e7\u00e3o cient\u00edfica: era uma f\u00eamea capaz de gerar descendentes sem reprodu\u00e7\u00e3o sexual. Antes de morrer, o animal produziu oito ovos vi\u00e1veis, permitindo que pesquisadores continuassem os estudos em laborat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Os descendentes foram enviados para an\u00e1lises conduzidas pelo pesquisador gen\u00f4mico John Bracht, da Universidade Americana, em Washington, nos Estados Unidos. Em ambiente controlado, os cientistas observaram que o verme apresentava prefer\u00eancias muito diferentes das de outros nematoides conhecidos.<\/p>\n<p>Enquanto esp\u00e9cies como <em><strong>Caenorhabditis elegans<\/strong><\/em> vivem associadas \u00e0 mat\u00e9ria org\u00e2nica em decomposi\u00e7\u00e3o e podem ser estudadas em temperaturas mais baixas, o verme-do-diabo apresenta melhor desempenho pr\u00f3ximo de 37 \u00b0C, condi\u00e7\u00e3o semelhante ao ambiente subterr\u00e2neo onde foi encontrado.<\/p>\n<p>A esp\u00e9cie tamb\u00e9m possui uma capacidade particular de locomo\u00e7\u00e3o. Em vez de nadar, ela utiliza estruturas corporais para se prender \u00e0s superf\u00edcies, caracter\u00edstica que pode favorecer sua perman\u00eancia em espa\u00e7os estreitos entre rochas.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-alteracoes-geneticas-ajudam-o-verme-a-suportar-condicoes-extremas\">Altera\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas ajudam o verme a suportar condi\u00e7\u00f5es extremas<\/h2>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"631\" src=\"https:\/\/ilheusnews.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/dna_enzima-1024x631-1.png\" alt=\"Enzima bacteriana que destr\u00f3i o DNA indiscriminadamente\" class=\"wp-image-1356711\" style=\"width:731px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/img.odcdn.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/dna_enzima-1024x631.png 1024w, https:\/\/img.odcdn.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/dna_enzima-300x185.png 300w, https:\/\/img.odcdn.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/dna_enzima-768x473.png 768w, https:\/\/img.odcdn.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/dna_enzima-1536x947.png 1536w, https:\/\/img.odcdn.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/dna_enzima-150x92.png 150w, https:\/\/img.odcdn.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/dna_enzima.png 2000w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption class=\"wp-element-caption\">Fitas de DNA \u2013 Imagem: KTSDesign\/Science Photo Library<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>A an\u00e1lise do DNA do <em><strong>Halicephalobus mephisto<\/strong><\/em> trouxe pistas sobre os mecanismos que permitem sua sobreviv\u00eancia. Em 2019, a equipe liderada por John Bracht identificou uma quantidade elevada de genes relacionados \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de prote\u00ednas de choque t\u00e9rmico.<\/p>\n<p>Essas mol\u00e9culas funcionam como prote\u00e7\u00e3o para outras prote\u00ednas do organismo, reduzindo danos provocados por temperaturas elevadas. O achado indicou uma adapta\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para a vida em ambientes quentes e subterr\u00e2neos.<\/p>\n<p>Em pesquisas posteriores, realizadas em 2024, os cientistas analisaram a <strong>citocromo c oxidase<\/strong>, uma mol\u00e9cula ligada ao uso de oxig\u00eanio para gera\u00e7\u00e3o de energia. Os experimentos indicaram que essa estrutura funciona melhor em temperaturas elevadas e reduz sua atividade em condi\u00e7\u00f5es mais frias.<\/p>\n<p>De acordo com John Bracht, pesquisador gen\u00f4mico da Universidade Americana, essa caracter\u00edstica pode representar uma estrat\u00e9gia evolutiva do animal. \u201c<em>Eles est\u00e3o garantindo que ir\u00e3o se reproduzir mais no ambiente melhor, mais quente<\/em>\u201d, afirmou o cientista ao explicar o comportamento metab\u00f3lico do verme-do-diabo.<\/p>\n<p>A capacidade de reprodu\u00e7\u00e3o sem parceiros tamb\u00e9m \u00e9 estudada como uma poss\u00edvel vantagem em um ambiente onde encontros entre indiv\u00edduos da mesma esp\u00e9cie podem ser raros. Bracht avalia que essa estrat\u00e9gia permitiria a continuidade da esp\u00e9cie mesmo em locais isolados.<\/p>\n<p>O pesquisador tamb\u00e9m considera a possibilidade de existirem machos da esp\u00e9cie ainda n\u00e3o encontrados, o que permitiria a reprodu\u00e7\u00e3o sexuada em determinadas situa\u00e7\u00f5es. A aus\u00eancia de diversidade gen\u00e9tica causada pela reprodu\u00e7\u00e3o assexuada costuma ser apontada como uma poss\u00edvel desvantagem evolutiva.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-um-ecossistema-escondido-sob-a-superficie-do-planeta\">Um ecossistema escondido sob a superf\u00edcie do planeta<\/h2>\n<p>A origem dos organismos que vivem nas profundezas ainda \u00e9 uma quest\u00e3o em aberto. Pesquisas conduzidas por Gaetan Borgonie e pela geobi\u00f3loga Cara Magnabosco indicam que alguns nematoides podem ter alcan\u00e7ado essas regi\u00f5es por meio da movimenta\u00e7\u00e3o da \u00e1gua subterr\u00e2nea, possivelmente influenciada por atividades s\u00edsmicas.<\/p>\n<p>Estudos sobre a chamada biosfera profunda apontam que os microrganismos presentes abaixo da superf\u00edcie representam uma parcela significativa da vida microsc\u00f3pica do planeta. Estimativas citadas pelos pesquisadores indicam que eles podem corresponder a uma fra\u00e7\u00e3o entre 12% e 20% da biomassa total de micr\u00f3bios da Terra.<\/p>\n<p>Outro caso investigado envolve a bact\u00e9ria <em><strong>Desulforudis audaxviator<\/strong><\/em>, encontrada em regi\u00f5es profundas de tr\u00eas continentes. Pesquisadores apontaram que essa esp\u00e9cie apresenta grande semelhan\u00e7a gen\u00e9tica entre popula\u00e7\u00f5es distantes e pode permanecer nesses ambientes desde a fragmenta\u00e7\u00e3o do supercontinente Pangeia, iniciada h\u00e1 cerca de 165 milh\u00f5es de anos.<\/p>\n<p>O estudo desses organismos subterr\u00e2neos tamb\u00e9m pode ajudar a compreender os primeiros cap\u00edtulos da hist\u00f3ria da vida no planeta. Cientistas avaliam que ambientes profundos podem oferecer pistas sobre condi\u00e7\u00f5es capazes de sustentar organismos antes do surgimento dos ecossistemas atuais.<\/p>\n<p>A pesquisa sobre o verme-do-diabo ainda refor\u00e7a uma conclus\u00e3o mais ampla: a vida pode ocupar espa\u00e7os considerados improv\u00e1veis e permanecer ativa mesmo em condi\u00e7\u00f5es muito diferentes daquelas encontradas na superf\u00edcie.<\/p>\n<p>\u201c<em>Como seres humanos, achamos que governamos o mundo, mas n\u00e3o \u00e9 verdade<\/em>\u201d, declarou Esta van Heerden, cientista ambiental da empresa sul-africana de biorremedia\u00e7\u00e3o iWater, em entrevista \u00e0 equipe respons\u00e1vel pela descoberta do verme. A pesquisadora afirmou que o estudo revelou uma perspectiva de humildade diante de organismos que existem h\u00e1 milh\u00f5es, e possivelmente bilh\u00f5es, de anos.<\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/olhardigital.com.br\/2026\/08\/07\/ciencia-e-espaco\/verme-do-diabo-revela-como-a-vida-sobrevive-nas-regioes-mais-profundas-da-terra\/\">Verme-do-diabo revela como a vida sobrevive nas regi\u00f5es mais profundas da Terra<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/olhardigital.com.br\/\">Olhar Digital<\/a>.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um pequeno verme encontrado nas profundezas de uma mina de ouro na \u00c1frica do Sul alterou a vis\u00e3o dos cientistas sobre os limites da vida no planeta. O animal, identificado em 2011 como Halicephalobus mephisto, tornou-se o primeiro nematoide conhecido a habitar regi\u00f5es t\u00e3o profundas da crosta terrestre. 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