{"id":10572,"date":"2026-06-24T12:00:46","date_gmt":"2026-06-24T15:00:46","guid":{"rendered":"https:\/\/ilheusnews.com.br\/?p=10572"},"modified":"2026-06-24T12:00:46","modified_gmt":"2026-06-24T15:00:46","slug":"bennu-da-dadiva-do-conhecimento-ao-risco-da-destruicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ilheusnews.com.br\/?p=10572","title":{"rendered":"Bennu: da d\u00e1diva do conhecimento ao risco da destrui\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div>\n<p>Na mitologia grega, Prometeu rouba o fogo dos deuses e o entrega \u00e0 humanidade. O fogo \u00e9, ao mesmo tempo, uma d\u00e1diva e um perigo. Ele permite o surgimento da civiliza\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m pode destru\u00ed-la. Hoje vamos conhecer um asteroide que parece carregar essa mesma dualidade: Bennu, que ao mesmo tempo \u00e9 considerado um dos asteroides mais perigosos que conhecemos, tamb\u00e9m pode nos ajudar a encontrar a resposta para uma das quest\u00f5es mais antigas da humanidade: a origem da vida na Terra. Poucas rochas espaciais escondem, ao mesmo tempo, tanto perigo e tanto conhecimento.\u00a0<\/p>\n<p>Com cerca de 500 metros de di\u00e2metro, Bennu pertence \u00e0 categoria dos chamados NEOs, a sigla em ingl\u00eas para \u201casteroides pr\u00f3ximos da Terra\u201d. Atualmente \u00e9 considerado um dos mais perigosos pelo Sentry, o sistema da NASA que monitora os riscos de impacto de asteroides com nosso planeta.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><figcaption class=\"wp-element-caption\">Asteroide Bennu registrado pela Sonda OSIRIS-Rex \u2013 Cr\u00e9ditos: NASA<\/figcaption><\/figure>\n<p>Sua hist\u00f3ria come\u00e7ou em 1999, quando foi descoberto pelo projeto LINEAR, um programa dedicado \u00e0 busca de objetos potencialmente perigosos para a Terra. Inicialmente ele recebeu a designa\u00e7\u00e3o provis\u00f3ria 1999 RQ36. Seu nome definitivo surgiu apenas em 2013, ap\u00f3s um concurso promovido pela Sociedade Planet\u00e1ria, quando a NASA se preparava para enviar a sonda OSIRIS-Rex at\u00e9 o asteroide.<\/p>\n<p>O estudante, de apenas nove anos, Michael Puzio, sugeriu Bennu, em refer\u00eancia \u00e0 divindade da mitologia eg\u00edpcia de mesmo nome e que \u00e9 representada por uma gar\u00e7a. Segundo Puzio, a sonda OSIRIS-Rex, com seus pain\u00e9is solares abertos e bra\u00e7o rob\u00f3tico estendido, se assemelhava com a ave mitol\u00f3gica em voo, se preparando para pousar.<\/p>\n<p>Mas o que torna Bennu t\u00e3o especial para merecer ser estudado de perto?<\/p>\n<p>Desde que foi descoberto, esse asteroide se tornou alvo preferencial de estudos. Ainda em 1999, durante sua aproxima\u00e7\u00e3o da Terra, Bennu foi extensivamente observado pelos radiotelesc\u00f3pios de Arecibo e Goldstone. As imagens de radar e os estudos espectrogr\u00e1ficos revelaram um asteroide carbon\u00e1ceo, com cerca de 500 metros e formato de pi\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"795\" height=\"400\" src=\"https:\/\/ilheusnews.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/asteroide-bennu2.jpg\" alt=\"asteroide bennu2\" class=\"wp-image-1344630\" srcset=\"https:\/\/img.odcdn.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/asteroide-bennu2.jpg 795w, https:\/\/img.odcdn.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/asteroide-bennu2-300x151.jpg 300w, https:\/\/img.odcdn.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/asteroide-bennu2-768x386.jpg 768w, https:\/\/img.odcdn.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/asteroide-bennu2-150x75.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 795px) 100vw, 795px\"><figcaption class=\"wp-element-caption\">Uma compila\u00e7\u00e3o de imagens de radar do Benu, \u00e0 esquerda, e um modelo 3D correspondente, \u00e0 direita \u2013 Cr\u00e9dito: Michael C. Nolan \/ Arecibo Observatory<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Os pesquisadores acreditam que ele seja um fragmento remanescente dos primeiros momentos da forma\u00e7\u00e3o do Sistema Solar. Quando o Sol come\u00e7ou a produzir calor, cerca de 4,5 bilh\u00f5es de anos atr\u00e1s, parte da nuvem de poeira que o circundava foi derretida, mas na regi\u00e3o onde Bennu se formou, a temperatura n\u00e3o era t\u00e3o alta, apenas o suficiente para derreter o gelo. A \u00e1gua agregou as part\u00edculas de poeira formando uma esp\u00e9cie de argila, que preservou praticamente intacta, a qu\u00edmica da nuvem primordial de onde se originaram os planetas e luas do nosso Sistema Solar.\u00a0<\/p>\n<p>Bennu \u00e9 formado principalmente dessa argila, mas n\u00e3o \u00e9 uma massa coesa e homog\u00eanea. Ele \u00e9 o que os astr\u00f4nomos chamam de \u201cpilha de entulhos\u201d, um amontoado de rochas de diferentes tamanhos unidas pela gravidade. Bennu \u00e9 provavelmente o resultado de uma colis\u00e3o ocorrida bilh\u00f5es de anos atr\u00e1s no cintur\u00e3o principal, entre Marte e J\u00fapiter. Com o passar do tempo, os fragmentos desse impacto se aglomeraram formando o asteroide. Perturba\u00e7\u00f5es gravitacionais acumuladas ao longo de v\u00e1rios milh\u00f5es de anos alteraram sua \u00f3rbita at\u00e9 coloc\u00e1-lo nas proximidades do nosso planeta.\u00a0<\/p>\n<p>Seu formato semelhante a um pi\u00e3o, se deve \u00e0 sua r\u00e1pida rota\u00e7\u00e3o, gastando apenas 4,3 horas para completar uma volta em torno de si mesmo. A for\u00e7a centr\u00edfuga gerada faz com que os fragmentos que o comp\u00f5em se acumulem mais em sua regi\u00e3o equatorial. Durante o per\u00edodo em que a Sonda OSIRIS-Rex orbitou Bennu, chegou a registrar que o asteroide perde material para o espa\u00e7o, provavelmente pela intensidade da for\u00e7a centr\u00edfuga gerada por sua rota\u00e7\u00e3o. Mas essa foi apenas uma das descobertas realizadas pela Miss\u00e3o da NASA, que transformou Bennu em uma celebridade cient\u00edfica.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"764\" src=\"https:\/\/ilheusnews.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-4-1-1024x764-1.png\" alt=\"bennu\" class=\"wp-image-1344632\" srcset=\"https:\/\/img.odcdn.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-4-1-1024x764.png 1024w, https:\/\/img.odcdn.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-4-1-300x224.png 300w, https:\/\/img.odcdn.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-4-1-768x573.png 768w, https:\/\/img.odcdn.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-4-1-150x112.png 150w, https:\/\/img.odcdn.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-4-1.png 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption class=\"wp-element-caption\">Registro do asteroide Bennu ejetanto part\u00edculas para o espa\u00e7o \u2013 Cr\u00e9dito: NASA<\/figcaption><\/figure>\n<p>Lan\u00e7ada em 2016, a miss\u00e3o OSIRIS-REx tinha um objetivo ambicioso: visitar o asteroide, coletar material de sua superf\u00edcie e trazer essas amostras para a Terra. A espa\u00e7onave chegou a Bennu em dezembro de 2018 e passou quase dois anos estudando o objeto em detalhes sem precedentes.<\/p>\n<p>A miss\u00e3o mapeou toda a superf\u00edcie do asteroide, analisou sua composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica, mediu sua estrutura interna e, em outubro de 2020, realizou a etapa mais importante da miss\u00e3o. Seu bra\u00e7o rob\u00f3tico tocou a superf\u00edcie de Bennu e coletou material suficiente para ser armazenado em uma c\u00e1psula de retorno. Em setembro de 2023, essa c\u00e1psula pousou com sucesso no deserto de Utah, trazendo para a Terra as amostras do asteroide, que j\u00e1 v\u00eam revelando descobertas extraordin\u00e1rias.\u00a0<\/p>\n<p>Al\u00e9m de minerais formados na presen\u00e7a de \u00e1gua, os cientistas encontraram uma grande variedade de compostos org\u00e2nicos, incluindo amino\u00e1cidos e outras mol\u00e9culas que s\u00e3o fundamentais para a forma\u00e7\u00e3o da vida. Isso n\u00e3o significa que Bennu contenha vida ou evid\u00eancias dela. Mas indica que os ingredientes desta receita, podem ter sido trazidos do espa\u00e7o, e entregues em domic\u00edlio por asteroides como o Bennu.\u00a0<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"512\" src=\"https:\/\/ilheusnews.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-5-1.png\" alt=\"amostras bennu\" class=\"wp-image-1344669\" srcset=\"https:\/\/img.odcdn.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-5-1.png 1024w, https:\/\/img.odcdn.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-5-1-300x150.png 300w, https:\/\/img.odcdn.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-5-1-768x384.png 768w, https:\/\/img.odcdn.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-5-1-150x75.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption class=\"wp-element-caption\">C\u00e1psula de retorno de amostras da OSIRIS-Rex com fragmentos do asteroide Bennu \u2013 Cr\u00e9dito: NASA<\/figcaption><\/figure>\n<p>Bennu preserva em seu amontoado de rochas espaciais, registros de uma \u00e9poca anterior ao surgimento dos oceanos, dos continentes e das primeiras formas de vida na Terra.\u00a0 Estudar suas amostras \u00e9 como abrir uma c\u00e1psula do tempo com mais de quatro bilh\u00f5es e meio de anos. Nos traz a d\u00e1diva do conhecimento, mas como o fogo de Prometeu, tamb\u00e9m representa o risco da destrui\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Estudos da sua evolu\u00e7\u00e3o orbital mostram que a partir do final do pr\u00f3ximo s\u00e9culo, Bennu inicia uma s\u00e9rie de 157 aproxima\u00e7\u00f5es perigosas do nosso planeta. O risco acumulado de impacto \u00e9 inferior a 0,06%, mas por ser um asteroide de 500 metros, com potencial destrutivo equivalente a 100 mil bombas como a de Hiroshima, \u00e9 um risco que n\u00e3o pode ser desprezado. Por isso, Bennu atualmente \u00e9 o segundo asteroide na tabela de risco do Sentry, atr\u00e1s apenas do 1950 DA.\u00a0<\/p>\n<p>Se atingisse nosso planeta, Bennu poderia gerar consequ\u00eancias extremamente graves em escala regional e continental. N\u00e3o seria nosso fim, mas certamente seria uma das maiores cat\u00e1strofes enfrentadas pela civiliza\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Talvez seja essa dualidade que faz de Bennu um asteroide t\u00e3o fascinante. Ele nos lembra que essas rochas espaciais s\u00e3o muito mais do que potenciais amea\u00e7as. Elas s\u00e3o testemunhas da forma\u00e7\u00e3o do Sistema Solar e arquivos naturais que preservam informa\u00e7\u00f5es sobre os processos que deram origem aos planetas e, talvez, da pr\u00f3pria vida aqui na Terra.<\/p>\n<p>E assim como o fogo de Prometeu, Bennu nos oferece o conhecimento sobre nossas origens, mas que tamb\u00e9m nos lembra da responsabilidade de proteger o nosso futuro. Porque compreender o Universo n\u00e3o \u00e9 apenas descobrir de onde viemos. \u00c9 tamb\u00e9m aprender a preservar o \u00fanico lar que conhecemos.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/olhardigital.com.br\/2026\/06\/24\/colunistas\/bennu-da-dadiva-do-conhecimento-ao-risco-da-destruicao\/\">Bennu: da d\u00e1diva do conhecimento ao risco da destrui\u00e7\u00e3o<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/olhardigital.com.br\/\">Olhar Digital<\/a>.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na mitologia grega, Prometeu rouba o fogo dos deuses e o entrega \u00e0 humanidade. O fogo \u00e9, ao mesmo tempo, uma d\u00e1diva e um perigo. Ele permite o surgimento da civiliza\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m pode destru\u00ed-la. 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