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Os preços estão mais altos do que nunca? O que você precisa entender

Os preços estão mais altos do que nunca? O que você precisa entender

Experimente comentar sobre o preço de algo em qualquer lugar. Por exemplo: do café, na fila do supermercado. Provavelmente vão te dizer que não só o item está caro. E a conversa deve desaguar em: o preço de tudo está mais alto do que nunca.

Até que ponto os dados confirmam essa impressão? E até que ponto ela é discurso cristalizado no imaginário popular? O Olhar Digital conversou sobre isso com Juliana Inhasz, professora de economia do Insper.

O que você precisa entender sobre os preços das coisas

Afinal, essa história de que as coisas estão mais caras do que nunca é verdade?

Para começar, “não necessariamente todos os preços se movem para o mesmo lado”, diz a professora. Isso significa que não é porque algo ficou mais barato (a conta de luz, por exemplo) que outra categoria (como alimentação) não pode ficar mais cara.

Encher o carrinho no supermercado parece sair cada vez mais caro – Imagem: Valter Campanato/Agência Brasil

Além disso, “não necessariamente as pessoas sentem os impactos da mesma forma.” Por que? “Cada um compra aquilo que lhe é mais conveniente, então cada um vai ter ali o seu conjunto de bens, e a percepção de um pode ser diferente da percepção de outro”, explica Inhasz.

A professora também observa que “é muito normal as pessoas terem uma memória de preços mais recente”. “E elas geralmente vão se lembrar dos preços aos quais estão expostas com maior frequência.”

“Se você vai todo dia tomar o mesmo café e o café subir de preço, você vai reparar e dizer: ‘Opa, ficou mais caro!’. Agora, tem produtos que você compra uma vez a cada 40 ou 50 dias. Quando o preço aumenta, às vezes você nem percebe que aumentou”, explica a professora.

Para a especialista, o ponto principal é: “Às vezes você nem percebe que aumentou, e, justamente porque o consumo acontece com pouca frequência, quando aumenta e você percebe, você superdimensiona esse aumento.”

Em termos nominais, os preços realmente estão altos. Uma lata de Coca-Cola, uma garrafa de água, um quilo de arroz, eles realmente estão em valores mais altos. E não é para isso que a gente talvez deveria olhar.

Juliana Inhasz, professora de economia do Insper, em entrevista ao Olhar Digital.

Isso porque, segundo a professora de economia, “nominalmente os preços sobem”. É normal. “O preço sobe e naturalmente a gente repassa isso para salários, para contratos, o que vai levando a aumentos de preços nos períodos seguintes”, acrescenta a professora.

Segundo a professora de economia, devemos observar como preços mais altos impactam nosso poder de compra.

“Se o meu salário cresce 10% e os preços daquilo que eu consumo crescem 5%, eu ainda estou ganhando. Meu salário está permitindo que eu consuma mais do que eu consumia antes”, explica Inhasz.

Porém, “se estou num cenário em que o meu salário cresce 5% e todos os preços crescem 10%, aí esse é um cenário problemático porque consigo comprar cada vez menos com o meu salário”, acrescenta.

O que afeta o comportamento dos preços

Segundo a professora, existem algumas causas que explicam a subida de preços hoje em dia ou o comportamento mais volátil em alguns casos.

“Primeiro, são custos”, diz a professora. “A gente tem visto categorias importantes com preços mudando: combustível, energia, matérias-primas, salários, transportes.”

Inhasz continua: “São vários custos que estão, de alguma forma, direta ou indiretamente impactando a produção e levando a preços maiores.”

Frutas em supermercado
Produtos in natura costumam baratear por conta de questões sazonais – Imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Outro ponto importante: fatores sazonais. “A gente tem passado cada vez mais por choques climáticos. Safras que mudam, chuvas, seca, temperatura que muda bruscamente.”

“Tudo isso tem impactado bastante as produções e, por sua vez, claro, se desdobra em mudanças de preços”, diz a professora.

Terceira causa: pressões de demanda. “Elas têm acontecido muito porque o mercado de trabalho está bem aquecido. Ainda que a economia esteja desaquecendo, o mercado de trabalho continua resiliente. E isso tem feito com que a demanda continue aquecida.”

Para a professora de economia, um ponto importante no caso do Brasil é a baixa produtividade. “Ela sozinha não consegue explicar preços subindo num ponto do tempo. Mas a baixa produtividade consegue explicar um efeito estrutural.”

Que efeito? “O custo por unidade produzida tem limitado muito o ganho de renda real. Isso dificulta aumentar salário”, explica Inhasz.

Segundo a especialista, o ponto é: “A produtividade mais baixa faz com que produzir custe mais. E, para garantir ou manter a margem de lucro, os preços sobem. Isso faz com que estruturalmente os preços fiquem mais altos ao longo do tempo.”

Por fim, Inhasz abordou o desequilíbrio fiscal. Segundo a especialista, ele “não é capaz de fazer o preço na gôndola do supermercado aumentar no dia seguinte”. “É um efeito de longo prazo.”

“Isso faz com que os investidores diminuam o seu apetite ao risco. Então, eles diminuem o investimento. Isso impede investimentos — em máquinas, equipamentos, tecnologia. A gente perde produtividade”, finaliza a especialista.

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